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Canção de Embalar ( Ao som de Lullaby – The Cure )

Dezembro31

Caio em minha jangada de sono
despejo minhas verdades e adio
minhas vontades.

Sob um céu de estrelas
me apanho, semeando saberes
debaixo de um soporífero olhar,
esperando ser devorado
por um milhar de tacteantes
joões pestana.

O fino vento embala o entrelaçar
do meu olhar, soltando sotaques

de gentes em meu redor murmurados.

No meu sonho te procuro
saboreando sabores.

Penitência

Dezembro30

Segurando tocando meus ossos
Esmagados os derroto
Derretendo tomo teus esboços
Emaranhados os corto.

Seja feita a vossa vontade
Apagando todas cinzas,
Acendo então minha verdade
Corcundo as nossas vidas.

E mostrando vontade verdade
E então paro, exploro.
Destilo sem não minha cidade
Me conjugo me imploro.

E me crucifixo, desloco-me
E paro, escuto, olho,
E traço desnudo, orgulho-me!

Então passo meu orvalho…

… … … … … … … … … … … …

Mas esqueço e glorifico-me.

Byron (Miguel Costa) – Parnásio Lusitano – 1999

Fotografias de ti ( Ao som de Pictures of You – The Cure )

Dezembro30

Passando pelo passado
te vejo, em embaraçado
desejo.

Como te vejo vivamente
mais viva do que me recordaria
agora.

Despejo em meus olhos,
a tua imagem, lavando a minha
recordação eterna,

como agora se aparenta brilhando
ao relento de um ar temperado.

Jangada

Dezembro29

Queimo por entre meus dedos
o morrer da água calada
acostumo minha carne sobre
a doce jangada
à qual deito meus lençóis
e estendo minha cama.

colho o sibilar do cristal-mármore
que teima em deixar seus sulcos riscados
sobre a queimada ardente que seiva
em sua frente o desenhar de seus troncos
cavados.

rotundo sobre o suor prático
e vulgar da salvaguarda
queixosa que em negros perfumes.
se esquece e falece.

sonhos encantos de finos abalos
se empatam e empalam diante
meu semear de ténue abraço
gasto.

lento se torna meu remar
a tal passo se torna falso
e serve a paisagem das
fluviais mágoas faladas.

Sol

Dezembro29

Em prisma disparas

inseparáveis mil cores

que depressa seduzes

em bailarinos de luzes.

Descubro-te a ti

entre um tocar de um fá

e um grito lá

lamentado.

Corpo celestial de gosto

salgado que solidifica

meu coração salvado.

Ofereço-te meu corpo

para que o possas pela tua luz

rasgar,

entre a carne que o compõe

pedaços de traços teus agarrados

encontrarás.

Teus claros cabelos

meu rosto do sono da noite lambem,

lavando e levando com eles

embaraçados sonhos de mel.

Tua seiva pelas plantas teima

solta, devorada e agarrada

no brilhar de teu olhar-esmeralda.

gaya

Dezembro29

Acendo

um ultimo adeus

por e quanto

apago a primeira

amarra que teu me toma.

destilo minha

pele enquanto

enxugo um toque

teu que tão depressa

te corre, meu corpo.

queimo lágrimas

sobre o vale que

em minha pele

se esconde,

vejo minha chama

arder sobre teu amalgo fluído

que de tua garganta segregas

e sufocas o cruel beijo…

eu, tu,

duas feridas que

se juntam

incardidas de sangue e dor…

derramas sangue

de teus seios.

tão depressa o

colocas no mar

que te devora…

a meus sonhos

me comovo agora,

deixado e comido

pelas trémulas bestas

que se soltam cavalgantes

em que, virtude purgante do

eterno visitante reluz

teus olhos os meus…

sujo minhas memórias

nas entranhas de tuas veias,

tais quais interrompem

meu inferno ardente

que se votiliza em

um abraçar

de teus

cantos.

separo meu beijo do teu

enquanto tu, de doces sonhos

mastigas reagente ao carinho

de uma cor que perdida se abate.

queimas meu suor negro

que aflui vacilante sobre a carne

de este perfume que te escrevo.

ainda chovem cinzas

tuas.

Apago

Incêndio

Dezembro28

Em quarto acordado me queimava eu
já sentado sobre o derramado osso
de meu lascado soalho.

Enterro meus dedos sob castelos
de cinza envolvente, feitos
de memória aquecida
de lembrar esquecida.

Teço pegadas em alegrias
de passados passos
de lágrimas cobertos.

Destapo meu pensar
de saborosos saberes

eternamente gastos
pelo latejante carvão
coberto.

Lavo em vão as carcaças
fumegantes, tentando a elas
lhes devolver a vida gasta
pelo cruel apetite ardente.

Caixa

Dezembro28

Em uma caixa me guardaste

meu pó me limpaste e o papel quente

das conversas sinuosas lhe juntaste.

Em uma caixa me encaixotaste

e a encaixar-me te decidiste

juntar-me às sobras de teu passado.

Em uma caixa me guardaste

e a arquivar-me te decidiste.

Pés, mãos, cabelo!

Cada qual para seu lado.

Unhas dentes e ossos!

Outros tais para seu canto.

Em uma caixa me separaste,

minha pele pelo teu corpo riscada

observaste, e escolheste o que a ti

mais te convinha guardar.

A pele dos invernos que te aquecia.

A pele dos verões arrefecidos e encharcados,

e até mesmo a pele que de mais íntimo te

tocara.

Em uma caixa me salvaste

minha caveira me quebraste,

e a meu cérebro chegaste

para minha memória analisar

e com a tua a comparar.

Sangue suor e lágrimas,

cada qual em mais territorial coabitação.

Sintetizas, codificas e optimizas,

e em tua caixa me guardas.(arquivas)

838

Dezembro28

Perdido na multidão te encontro

semelhante a mim diluído e

esquecido pelo embaraçado mar

que nos movimenta em ondas tímidas

que bem serviam nosso amor.

Sacudo meu já envelhecido e sujo pó

de meus sapatos, pelo cristalino suor

calçados e calcados de uma saliva saliente

em uma eterna estrada de gente,

emaranhada em surgido
aparato aperto de parto.

Golpeio feridas em direcção a ti

e concordo com o teu sentir

ignorando-me em igual.

Disfarço e faço meus sentidos

cortados no vendaval gritante,

perseguindo meu já velho embaraço.

Idolatro meu ídolo teu

e de ti esqueço sem esquecer,

decalco as sombras de

meus passados e esvazio

cinzas do que de meu é.

Acordo saudando a saudade

do teu esquecer vazio.