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Penitência

Dezembro30

Segurando tocando meus ossos
Esmagados os derroto
Derretendo tomo teus esboços
Emaranhados os corto.

Seja feita a vossa vontade
Apagando todas cinzas,
Acendo então minha verdade
Corcundo as nossas vidas.

E mostrando vontade verdade
E então paro, exploro.
Destilo sem não minha cidade
Me conjugo me imploro.

E me crucifixo, desloco-me
E paro, escuto, olho,
E traço desnudo, orgulho-me!

Então passo meu orvalho…

… … … … … … … … … … … …

Mas esqueço e glorifico-me.

Byron (Miguel Costa) – Parnásio Lusitano – 1999

Jangada

Dezembro29

Queimo por entre meus dedos
o morrer da água calada
acostumo minha carne sobre
a doce jangada
à qual deito meus lençóis
e estendo minha cama.

colho o sibilar do cristal-mármore
que teima em deixar seus sulcos riscados
sobre a queimada ardente que seiva
em sua frente o desenhar de seus troncos
cavados.

rotundo sobre o suor prático
e vulgar da salvaguarda
queixosa que em negros perfumes.
se esquece e falece.

sonhos encantos de finos abalos
se empatam e empalam diante
meu semear de ténue abraço
gasto.

lento se torna meu remar
a tal passo se torna falso
e serve a paisagem das
fluviais mágoas faladas.

gaya

Dezembro29

Acendo

um ultimo adeus

por e quanto

apago a primeira

amarra que teu me toma.

destilo minha

pele enquanto

enxugo um toque

teu que tão depressa

te corre, meu corpo.

queimo lágrimas

sobre o vale que

em minha pele

se esconde,

vejo minha chama

arder sobre teu amalgo fluído

que de tua garganta segregas

e sufocas o cruel beijo…

eu, tu,

duas feridas que

se juntam

incardidas de sangue e dor…

derramas sangue

de teus seios.

tão depressa o

colocas no mar

que te devora…

a meus sonhos

me comovo agora,

deixado e comido

pelas trémulas bestas

que se soltam cavalgantes

em que, virtude purgante do

eterno visitante reluz

teus olhos os meus…

sujo minhas memórias

nas entranhas de tuas veias,

tais quais interrompem

meu inferno ardente

que se votiliza em

um abraçar

de teus

cantos.

separo meu beijo do teu

enquanto tu, de doces sonhos

mastigas reagente ao carinho

de uma cor que perdida se abate.

queimas meu suor negro

que aflui vacilante sobre a carne

de este perfume que te escrevo.

ainda chovem cinzas

tuas.

Apago

Incêndio

Dezembro28

Em quarto acordado me queimava eu
já sentado sobre o derramado osso
de meu lascado soalho.

Enterro meus dedos sob castelos
de cinza envolvente, feitos
de memória aquecida
de lembrar esquecida.

Teço pegadas em alegrias
de passados passos
de lágrimas cobertos.

Destapo meu pensar
de saborosos saberes

eternamente gastos
pelo latejante carvão
coberto.

Lavo em vão as carcaças
fumegantes, tentando a elas
lhes devolver a vida gasta
pelo cruel apetite ardente.

Caixa

Dezembro28

Em uma caixa me guardaste

meu pó me limpaste e o papel quente

das conversas sinuosas lhe juntaste.

Em uma caixa me encaixotaste

e a encaixar-me te decidiste

juntar-me às sobras de teu passado.

Em uma caixa me guardaste

e a arquivar-me te decidiste.

Pés, mãos, cabelo!

Cada qual para seu lado.

Unhas dentes e ossos!

Outros tais para seu canto.

Em uma caixa me separaste,

minha pele pelo teu corpo riscada

observaste, e escolheste o que a ti

mais te convinha guardar.

A pele dos invernos que te aquecia.

A pele dos verões arrefecidos e encharcados,

e até mesmo a pele que de mais íntimo te

tocara.

Em uma caixa me salvaste

minha caveira me quebraste,

e a meu cérebro chegaste

para minha memória analisar

e com a tua a comparar.

Sangue suor e lágrimas,

cada qual em mais territorial coabitação.

Sintetizas, codificas e optimizas,

e em tua caixa me guardas.(arquivas)

838

Dezembro28

Perdido na multidão te encontro

semelhante a mim diluído e

esquecido pelo embaraçado mar

que nos movimenta em ondas tímidas

que bem serviam nosso amor.

Sacudo meu já envelhecido e sujo pó

de meus sapatos, pelo cristalino suor

calçados e calcados de uma saliva saliente

em uma eterna estrada de gente,

emaranhada em surgido
aparato aperto de parto.

Golpeio feridas em direcção a ti

e concordo com o teu sentir

ignorando-me em igual.

Disfarço e faço meus sentidos

cortados no vendaval gritante,

perseguindo meu já velho embaraço.

Idolatro meu ídolo teu

e de ti esqueço sem esquecer,

decalco as sombras de

meus passados e esvazio

cinzas do que de meu é.

Acordo saudando a saudade

do teu esquecer vazio.

Engulo Gente

Dezembro28

Engulo avidamente esfomeado
pessoas de mil sabores.
( Obtusas, elementares e em sal
conservadas )

Sinto o estalar da carne
de genes de gente germinante,
que ruminantemente guardo
entre o meu estomacal desejo.

Como se derretem vaporizando
vapores de múltiplas cores,
aquelas que se fazem pintar
como flores de minha flora.

Pelo gigante vermelho
navegam agora,
como por jangadas de ferro
se fazem chegar
às muralhas de meu cérebro.

Em vão lavo-me em detergente de gente
tratando gentilmente de tentar
tirar os encardidos cordéis
que se emaranham encarcerados
dentro da minha enlameada carne.

Jardim de Ferro

Dezembro28

Caem frias as abóbadas de ferro,
aquelas que caem em meu jardim,
como se acotovelam sedentas do enterro
no sepultar do sepulcro sagrado das
ferrugentas entranhas de meu jardim.

Semeio colheres de vento que se acasalam
e formam flores de um fino pedaço de aço
semelhante a mim.

Despejo meu humilde desejo
entre as acamadas camadas
mortas, alimentando-as com o
sabor sedimentar das eternas
eutéticas sedes sujas.

Simulo colheitas de um fruto feito
das silvas de um arame silvestre,
tão semelhante a um sabor sentido
em um trincar de lábios confusos.